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Porque a saúde é um direito, protegê-la é um dever!
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Acabada de chegar do hospital, onde me foi diagnosticada uma dupla infecção - respiratória e urinária - decido-me, apesar do cansaço, a dizer de minha justiça... porque outros poderão vir a ser vítimas dos mesmos descuidos...
Logo na triagem informei que estava com uma infecção urinária e foi-me dado um recipiente para recolha da urina. Tudo muito rápido, tudo com a maior das eficiências... nenhuma queixa no que toca à triagem.
Mais uma meia horita na sala - sei lá, até pode ter sido um pouco mais mas pareceu-me pouco tempo - e chamam-me para observação no balcão de medicina. Também aqui tudo correu segundo o que considero normal. Seguiram-se os vapores com um broncodilatador, uma colheita de sangue para análise e o raio x que se justifica porque a minha infecção respiratória não foi completamente curada pelas minhas, pelos vistos, pouco competentes defesas.
Mais um tempo - um pouco mais longo, desta vez - na sala de espera e lá me chamam de novo. A médica pergunta-me onde costumo fazer controlo do INR e avisa-me de que não poderei tomar a dose de Varfarina no dia seguinte - hoje - porque o INR está bastante elevado e recomenda-me que vá, no prazo de dois dias, fazer nova avaliação do tempo de protrombina. Tudo correctíssimo... até aqui. O pior foi a medicação; amoxicilina com ácido clavulânico e nada de urinocultura... mesmo que não se tratasse de uma utente com patologia crónica, nunca se deveria "esquecer" uma recolha asséptica de urina para urinocultura e despiste dos antibióticos a que a bactéria - que ninguém pode saber qual é senão através da tal urinocultura - possa ser sensível. Não se podem por em risco, desta forma, as vidas dos doentes... ou não se deve fazê-lo. Porque poder, pelos vistos, pode...
Outra coisinha; eu tive a sorte de conseguir uma boleia de uma das minhas filhas, de outra forma não me poderia deslocar ao hospital pois não tenho dinheiro para táxis e não estou em estado de apanhar transportes públicos... que também me ficariam incomportavelmente caros. Por que razão os programas informáticos dos serviços de urgência não estão preparados - esta noite não estavam - para inscrever nas receitas as portarias e despachos que conferem medicação gratuita aos doentes que, como eu, têm direito a esse benefício? Foram pagos 6,34 euros por um antibiótico que deveria ter sido integralmente comparticipado. No país real existem pessoas como eu, a auferir 189 euros mensais do RSI... e não serei a única que o aufere por não estar em condições físicas de exercer uma profissão remunerada... são pequeninas coisas que se diluem completamente nas reformas estruturais do sistema nacional de saúde mas que, não tenham dúvidas, "infernizam a vida" de quem não tem dinheiro, mas vai tentando acreditar que tem alguns direitos.
Que ingenuidade a nossa!!!
Maria João Brito de Sousa - 21.12.2011 - 06.07h
Há demasiado açucar nos textos, nos poemas, nas pinturas. Há demasiadas flores, demasiadas borboletas, demasiado azul-bebé. Há demasiado rosa-choque. Demasiadas "cachoeiras" cristalinas.
Sempre foram demasiados, as lágrimas postiças e os sorrisos seráficos...
De vez em quando... farto-me!
Afinal vale a pena chegar demasiado cedo a uma concentração.
Para além de algumas viaturas da PSP, só um amigo anónimo marcava orgulhosamente o local com uma enorme bandeira portuguesa. O trânsito automóvel, naturalmente desbastado pelo início do fim de semana, fazia-se representar por um carro passando aqui, outro acolá. Os lisboetas - um punhado deles - circulavam à vontade nos passeios esvaziados e tudo parecia conforme o habitual no largo do Saldanha. Num momento, era isto o que eu via e, no outro, começava um não sei que crescente burburinho, que longínquo rufar de tambores, que súbita mudança no rosto ou nos gestos das gentes, que nos alerta, nos arrepia e nos faz sentir que está prestes a começar.
Ei-los que chegam, os primeiros autocarros repletos do povo que veio do Alentejo para, em Lisboa, dar voz ao seu descontentamento. Alguns identificavam-se pelos nomes das freguesias pintados nas carrosserias, outros pareceriam autocarros comuns, não fosse aquele não-sei-quê que deles emanava no calor da tarde ainda silenciosa. As televisões, que haviam chegado um pouco antes, registavam uma ou outra imagem. Ao fundo da praça, do lado esquerdo de quem sobe a Fontes Pereira de Melo, faziam-se os últimos preparativos para a marcha numa velha carrinha de caixa aberta que "gritava" contra o a política de abandono da agricultura.
A base da estátua do Duque de Saldanha era o único local onde se podia encontrar um pouco de sombra. Lá se abrigava um pequeno grupo de alentejanos junto dos quais acabei por me sentar, rendida ao cansaço e ao calor daquela tarde de 1 de Outubro de 2011. Foi de lá que peguei no telemóvel e fiz uma chamada para uma amiga: - Estou em Lisboa, rodeada de alentejanos e vou marchar! Se morrer, telefono-lhe para me ir tratar da bicharada!
Os carros de apoio começaram a surgir e o burburinho foi rapidamente abafado pela voz do Zeca que desafiava, "Venham mais cinco!". Alguns de nós juntámos a nossa voz à dele e vi então chegar, coberto de espigas e papoilas, o autocarro de um Campo Maior Levantado do Chão. Foi essa a última imagem que registei nitidamente antes de tudo começar a apressar-se e a combinar-se entre si como se aquele mar de gente fosse um organismo vivo cujos orgãos tivessem começado a funcionar sincronizadamente. Encontrei o grupo que representava a minha freguesia natal, Oeiras, com o seu legítimo apelo por mais e melhores transportes e, em pouco tempo, marchávamos ao som das palavras de ordem.
Não havia orgão nem membro que me não doesse mas, cá por dentro, no mais fundo de mim, senti-me de novo com vinte e um anos e, por instantes, por breves instantes que me souberam à eternidade, juraria ter visto a Avenida da Liberdade coberta de cravos vermelhos.
Maria João Brito de Sousa - 02.10.2011
Imagem da manifestação da CGTP de 01.10.2011, retirada da internet, via Google
Aqui, onde me sento, nasce-me outra sede nos lábios com sabor a café.
Mato o sorriso e até a força me vai renascendo nestas letras de negro vestida. Porque essa… essa não quero que me morra ainda! A não ser que me assegurem – alguém mo assegure, por favor! – que as palavras que me nasceram não morrerão em vão.
Hoje mato o sorriso… até ao próximo capítulo. Até ao momento em que, não importa a convulsão, as gentes se levantem sobre as pernas vacilantes e caminhem. Caminhem, já não sob este fogo cruzado das opiniões desencontradas, dos sabores adocicados, das dívidas mais ou menos fantasmagóricas, do amor que se esquece de ir além das saias curtas dos últimos modelos, da submissão – excessiva submissão – do poema ao banho-maria das conveniências. Caminhem apenas, mas numa direcção.
Mato o sorriso, arreganho o dente e lanço as palavras que ninguém quer ouvir. Só para que os vossos braços se levantem em protesto. Mesmo que as minhas pernas não consigam caminhar.
Mato o sorriso mas não choro. Quero aquilo que mais vos custa e nada posso dar para além destas palavras em que me exponho. Vermelha por fora; vermelha por dentro!
Maria João Brito de Sousa
Tem calma! Não desesperes que eu, hoje, falo-te de amor!
“Já não era sem tempo!”, pensarás. Mas foi assim mesmo que as coisas se passaram e se me foram desdobrando, como se o tempo usasse, para mim, ponteiros de uma dimensão que te não diz respeito.
Que fazer? Erguia-me, no despontar dos dias, disposta a vergar os ramos desta minha segurança emocional na direcção daquilo que esperavas e logo se me enchia o coração de alegrias e tristezas e as mãos de milho, areias e rações que me ocupavam corpo e alma numa distribuição vertical, absorvente e estranhamente gratificante… esforçava-me por ter saudades – pelo menos por conseguir evocá-las… - de um beijo daqueles que aparecem descritos, às centenas, cheios de suspiros, gemidos e anseios rebuscadamente incontíveis, e logo as mãos e os olhos se me apaziguavam na maciez do pêlo de cores simples e cativantes dos meus animais, nos seus quatro focinhos expressivos e expectantes. Uma mulher não é de ferro! Tanta paz, tanto carinho, tanta dedicação partilhada, tanto bom poema para escrever e logo tu me vinhas com essas imposições da explanação gongórica dos desejos e das rebuscadíssimas metáforas ensalivadas, paroxísticas, desgastadas… uma mulher não é de ferro, repito, e eu já passei por aquilo que tu não podes nem sonhar na indigestão de ser exactamente igual ao que esperavam de mim. Mas hoje, está prometido!
Dá-me só mais uma hora… ou duas. O Beethoven olha-me com olhos de mel e eu sei que é um olhar de despedida. Oiço os primeiros acordes da sinfonia do nono miado e terei de largar estas teclas mudas. Por uma hora… duas… três… eu sei lá por quanto tempo poderei ainda ouvi-lo!
Calma! Eu sei que as duas ou três horas já passaram, no mostrador ansioso por que te deixas guiar, mas… que queres? Esta harmonia tem o seu contraponto e o Kico, tal como o Beethoven, já ultrapassou o seu tempo de vida biológica. Os órgãos disfuncionam-lhe e eu tenho de limpar o produto dos seus períodos de incontinência… que pena não serem momentos daqueles que se transcrevem num cio ensalivado e gemente, não é? Não são nada sensuais estes gestos da recolha dos dejectos e o vaivém da esfregona no chão não deve fazer evocar nenhum dos desgastadíssimos coitos que por aí andam descritos, mais ou menos metaforicamente… estou cansada destes contrapontos mas em verdade te digo que muito mais me cansa a banalidade levada à exaustão. Uma mulher não é de ferro!
E agora que o Sigmund me chama no seu miado rouco para uma sessão de brincadeiras e ferozes lutas fingidas… não resisto mesmo! Peço desculpa por voltar com a palavra atrás. Afinal ainda não é hoje que te falo de amor…
Maria João Brito de Sousa – 24.08.2011 – 13.40h
Este blog estava parado há tanto tempo que decidi postar esta imagem de um óleo que pintei sobre madeira, quando tinha nove anos. Nunca gostei de retrato... a representação, para mim, é outra coisa... mas, ao nove anos, somos capazes de tudo para tentar copiar os adultos...
Lembro-me de que esta era a Amelinha, uma das amigas da minha avó paterna.
Maria joão Brito de Sousa - 02.08.2011
Vocês, que até ganham um bocadinho mais do que cento oitenta e nove euros por mês, pagariam?*
Provavelmente estou mesmo com uma infecção urinária alta (com compromisso renal, como todas as poucas que tive…) que não deve ter nada a ver com os banalíssimos Escherechia Coli** que toda a gente vai tendo de quando em vez, porque as minhas - essas poucas que mencionei - foram inevitavelmente protagonizadas por bicharocos maquiavélicos e oportunistas, do tipo Proteus Mirabilis … ou pior. Não me parece que seja preciso ser técnico de saúde para se entender que, numa cidadã debilitada ao nível da saúde física, este tipo de infecção seja incomparavelmente mais grave do que num adulto saudável… mas, adiante! A urinocultura vai ser, com toda a probabilidade, inconclusiva porque eu estou a fazer antibioterapia, prescrita no hospital, para uma infecção respiratória. Até aqui,” tant mal que bien”… ninguém tem a culpa deste tipo de azares e, azares, acontecem a qualquer um… aquilo que eu não posso nem quero calar é o facto de estar a ser lesada num dos meus mais básicos direitos. Tão simples quanto isto; em qualquer unidade de cuidados de saúde a que eu – in extremis e só in extremis! – recorra, a barra magnética do meu cartão de cidadão informa os funcionários administrativos da minha situação de “isenta por doença crónica”. Isto acontece sempre que eu sou convocada para uma consulta ou, em último caso, recorro à urgência hospitalar. “Normal!”, exclamarão vocês, caso tenham tido a improvável paciência de trazer a vossa leitura até este exactíssimo ponto…
Sim, normalíssimo, responderei eu, acrescentando que nada seria mais normal do que isto SE – há sempre um SE… - no Centro de Saúde de Oeiras eu não fosse obrigada a pagar não só a taxa moderadora, como também a minha comparticipação nas análises clínicas e outros meios complementares de diagnóstico.
Porque não resolvo já isso? Eu tento! Eu bem tento… ando há meses a tentar e todos me vão dando as respostas mais estapafúrdias que alguém possa imaginar! Hoje, por exemplo, não me bastou apresentar os atestados acima – e abaixo… - e tentar explicar que não é possível um serviço de cuidados de saúde passar-me receitas electrónicas nas quais o despacho que oferece gratuitidade está presente e, a seguir, ceder-me credenciais para análises clínicas onde o mesmo despacho desaparece miraculosamente…
Viram como eu tentei?
*Penso que, nesta coisa de “pobreza online”, continuo a bater todos os recordes…
** Estes, a que a maioria chama de Colibacilo,
não fazem grande mossa no adulto saudável e não têm culpa nenhuma de que uns “primos” tenham resolvido evoluir de forma mais agressiva, deixando o nome da” família” pelas ruas da amargura, em parangonas, nas páginas de todos os jornais…
Maria João Brito de Sousa – 27.06.2011 – 23.59h
Casámo-nos num qualquer dia de um mês em que fazia calor, na década de 90 do século passado. Já tínhamos tido algumas aventuras, não nego, e conhecíamo-nos desde os primórdios dos meus dias, mas esta união de corpo e alma, a roçar o desespero do lume da pele e a pedir-nos palavras impossíveis, só se deu nessa altura. No início – todos vocês o entenderão… - foi um estranho encantamento, um coleccionar de beijos rápidos em cópulas desajeitadas e pouco fecundas, um quebrar de rotinas na fronteira da falta de vergonha na cara. Todos repararam, ninguém perdoou mas, bem ou mal interpretado, o romance começara até que a morte nos separasse e nenhum de nós se esforçou demasiado por se fazer ouvir no julgamento sumário a que os outros nos condenaram. Ele há amores que não se podem guardar por dentro dos corpos, mesmo que, somados, os tentemos dividir… este foi um desses. O meu último grande amor, o supremo e definitivo anseio criativo.
(suponho que continue…)
Maria João Brito de Sousa
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