Terça-feira, 14 de Setembro de 2010

ENREDOS

 

 

 

Reparei nela assim que entrou na sala de espera. Foi o som que primeiro me chamou a atenção, o estalar ritmado e seguro de saltos altos na cerâmica que cobria o chão. Ainda hoje, quando penso nisso, não consigo perceber como a ouvi chegar. O meu olhar colado à porta do consultório parecia ter monopolizado os outros sentidos e ouvir fosse o que fosse que viesse de outro ponto da sala, seria muito improvável. No entanto ouvi-a e o som tornou-se suficientemente intrigante para me fazer desviar olhos e atenção, rodar o tronco no sentido oposto e deixar-me afundar num arrepio de pânico quando confirmei a suspeita levantada, algures no meu cérebro, pelo familiar tic-toc dos passos da minha mãe. Estava ali, a alguns metros de mim, debruçada sobre o balcão de atendimento, interrogando com a sua proverbial segurança a empregada de serviço. Como me irritava e simultaneamente assustava aquela inabalável segurança de quem sabe exactamente o que faz e porque o faz!

Um suor frio cobriu-me o rosto e, por instantes, senti uma imensa urgência de fuga. Talvez conseguisse passar sem que ela me visse, chegar ao patamar, entrar no elevador e desaparecer de uma  vez por todas… mas não. Os olhos dela, serenos, severos, estavam já pousados sobre mim e ela percorria – tic-toc – os poucos passos que ainda nos separavam.

Parou exactamente à minha frente antes de me dar tempo de esboçar um gesto de fuga.

- Vem comigo até à varanda, Marta., solicitou ignorando a minha lividez e o tremor das minhas mãos que uma providencial revista anónima não conseguia disfarçar. De novo me assaltou a ideia de fuga, mas já a mão dela segurava a minha e o meu corpo obedecia automaticamente à sua esmagadora determinação.

Lá fora, a tarde arrefecia como se quisesse justificar o gelo que parecia ter tomado conta de mim e o trânsito, na rua, parecia tão caótico quanto as batidas do meu coração. Ela, severa, serena, segura – tão absurdamente segura! - acendia um cigarro sem esboçar um sorriso.

- E agora, Marta, vais dizer-me o que estás a fazer num consultório de ginecologia e obstetrícia, ou vais deixar que eu adivinhe?, atirou depois de soprar a primeira espiral de fumo branco.

- Como soubeste que eu estava aqui?

- Puro acaso, Marta… e não me agrada que tenha sido assim. Ia a sair da pastelaria quando te vi deste lado da rua. Chamei-te e não me ouviste. Pensei chamar-te de novo, mas tu já lias a placa junto à porta do consultório e resolvi não te dar a hipótese de mentires… mais uma vez.

 


Maria João Brito de Sousa

 


“Enredado”para http://fabricadehistorias.blogs.sapo.pt/


 

NOTA - A peça inicial, sublinhada, é da inteira responsabilidade e autoria da Fábrica. O meu trabalho só se inicia a partir da última palavra em destaque.

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publicado por poetaporkedeusker às 16:48
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Quinta-feira, 9 de Setembro de 2010

CRIAÇÕES E RE-CRIAÇÕES

 

 

Esticou os braços em direcção ao aspirador e parou, de repente, ao som do despertador. “Horas de acordar, caso tivesse chegado a adormecer…”, constatou com um sorriso genuíno.

Parou para reflectir, entre duas tarefas iminentes. Decidiu-se por uma terceira e ali ficou a rabiscar sobre o papel Fabriano, enquanto, lá fora, o sol nascia.

Os traços multiplicavam-se-lhe, lestos, sobre a superfície branca, levemente rugosa. Haveria acasos, afinal? Não, não era isso que estava em causa. O que, subitamente, se colocava em causa era a essência dos acasos… de onde vinham, por que razão vinham ou nasciam exactamente ali, tomando aquela forma precisa na sua imprecisão.

E se nada os produzisse? Se existissem por si só… não! Nada de nada existia só por si no universo inteiro. Essa era uma das poucas certezas que tinha. Uma verdade absoluta que aprendera a tomar como fronteira do seu conhecimento. Talvez nunca a tivesse aprendido. Acreditava que todos os seres vivos traziam consigo um património genético que jamais deveria ser desprezado e ela não seria excepção… seria portanto essa certeza uma das suas características enquanto individuo de uma determinada espécie. Muito bem.

Os traços, agora abundantes, cessaram de nascer e o momento pediu-lhe outra reflexão.

Brevemente, muito brevemente, nasceria mais um soneto.

 

 


Maria João Brito de Sousa

 

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publicado por poetaporkedeusker às 17:17
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