Terça-feira, 29 de Maio de 2012

CONSIDERAÇÕES SOBRE UMA NOITE DE CÃIBRAS

 

 

Merda para as questões que nunca me puseram!

Um soprozinho de nada, a arder por dentro dos sentidos, um arrepio qualquer no virar da esquina de uma frase ambígua, um toque de raspão onde a colisão das decisões deveria impor-se. Coisas, demasiadas coisas por dizer num universo inteiro de intuições evitáveis.

Falta-me tempo e eles não podem sabê-lo. Falta-me vida onde descrêem da mera ousadia.

A palavra, por vezes, treme-me na agonia dos dedos crispados, desequilibra-se e estatela-se desfeita nos cacos da chávena de chá. Assim a bebo, assim a sirvo – quando a quereria intacta, mesmo que menos útil… – apenas aromatizada pela breve, breve memória das ilusões que há muito deixei de comprar na loja falida das coisas demasiadamente supérfluas para se tornarem duradouras.

Nas ruas mais ou menos degradadas do meu corpo cruzam-se, a cada instante, homens, mulheres e crianças cobertos de todas as fomes, de todas as sedes. Nenhum egoísmo – do pouco que me resta nas prateleiras do armáriozinho dos últimos socorros – os poderá fazer retroceder.

Paro. Descanso de mim mesma. Que não deles, que não do cinzento que os cobre desse entardecer de todas as esperanças. Depois retomo o ritual do chá inevitavelmente derramado, em líquidos estilhaços sobre um pedaço de chão que se perdeu no tempo. Sirvo-o, ainda que tardio. Sirvo-o, ainda que o saiba um sucedâneo das colisões frontais que nunca aceitariam entender.

Sobra-me, sempre, uma vontade incómoda a resistir no derradeiro reduto de cada contrariedade.

 


 

 

Maria João Brito de Sousa – 29.05.2012 – 03.00h


 

IMAGEM - Tela de Pablo Picasso retirada da net. Trabalho ilustrativo do seu período de cubismo analítico.

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Sexta-feira, 18 de Maio de 2012

CARTA MUITO ANTIGA A UM AMIGO URGENTE

 

Curto muito a minha “panca”, meu caro. Assumo-a e jamais me demitirei dela.
(merda! Entornei o garoto e deixei cair a palhinha…)
Neste vigésimo terceiro dia do mês da Loucura da Era do Ovo, gostaria de dizer-te – e dir-to-ei! – que apenas me sinto grata e que, para mim, a gratidão é um sentimento, no mínimo, deplorável.
Dir-te-ei, também, que estou desiludida… mas, disso não tens tu culpa… estou, muito provavelmente, desiludida comigo mesma.
És apenas um homem e, na verdade, nunca me pediste as asas que, amorosa e estupidamente, fui tecendo para ti.
Homem, esta minha “panca” – não tenciono demitir-me dela, repito! – queria, de mim, que tu voasses… que queres? Eu bem te tinha avisado…
E queria mais, esta minha assumidíssima imitação de loucura! Queria que fosses o irmão que nunca tive, o menino que partiu, o poeta que não és… e talvez (?) te quisesse a ti também… sempre no pretérito mais-que-perfeito do verbo impossível, imagina!
Não te preocupes. Não enlouqueci de vez. É que esta lucidez indigesta e excessiva andava a fazer-me mal e o meu avô escrevia-me de “anjos que têm olhos fundos como espelhos, olhos de ver através das almas”. Nem penses em culpar-me da inocência de ser como sou. Aceita-me apenas e nunca me rotules porque, às papoilas, ninguém pode fazê-lo. Verdade, verdadinha; a elas, de magoadas, caem-lhes as pétalas todas e os senhores doutores, esses, ficam desconcertados…


Post Scriptum – Perdoa-me. Sinto que foste injustiçado… é que, um destes dias, ao entrar no teu gabinete, – tinha-me, decerto, esquecido de pôr os óculos cor-de-rosa… - pareceu-me ver em ti um homem. Um homem, assim, igualzinho a todos os outros, capaz dos mesmos erros, passível dos mesmíssimos defeitos…
O caminho para aí ERA sempre igualzinho à interminável Estrada de Tijolos Amarelos e eu tinha feito de ti o meu feiticeiro de Oz do Antes-da-Gravidade-e-Tudo-o-Mais…
Soubeste-me, vagamente, às milenares reminiscências dos anjos da guarda… imaginei-te protecção, porto sereno, fortaleza e armadura… apesar das limitações burocráticas e da inevitabilidade das taxas moderadoras.





Maria João Brito de Sousa – 23.05.1993 – 21.20h


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