Segunda-feira, 14 de Junho de 2010

CRONICONTO

 

Foi ao anoitecer de um qualquer sábado por inventar. Era um caracol. Um belíssimo e bem desenvolvido molusco gastrópode do género Hélice.

Chamava-se José Maria. Não porque isso lhe fosse útil para se distinguir entre os seus ou porque, sequer, tivesse um aparelho fonador que lhe permitisse pronunciar uma aproximação de nome. Nada disso. Aquele caracol chamava-se José Maria porque eu, naquele final de tarde assim decidi o baptizar. E isso me bastou a mim e a ele lhe foi absolutamente indiferente.

José Maria teve um curto percurso nesta crónica de um dos meus momentos de rua… descobri-o enquanto se salvava de um canteiro ensopado pela chuva que, naquele dia, parecia eternizar-se. Escapou por um triz à sola do meu sapato e continuou, viscoso e decidido, o seu caminho pelas pedras da calçada em direcção a “sabe Deus o quê”… e Deus, naquele cair de noite, não se dignou proteger o rasto viscoso mas impoluto do desafortunado José Maria.

 

Um homem de fato cinzento, alto, entroncado, caminhava em direcção a nós falando ao telemóvel. A princípio era apenas um vulto semidiluído no crepúsculo de fundo. Apenas o vislumbrei, distraída que estava, os olhos postos na caminhada lenta e ondulante do meu novo e pequeno amigo.

Ele, caracol, avançando decidido, decerto incomodado pelo excesso de humidade; eu ali, embevecida, segurando o chapéu-de-chuva e tentando entender razões e filosofias de vida dos moluscos com exosqueleto…

Pareceu-me ter decorrido uma eternidade entre o momento em que vislumbrei o homem cinzento que falava para o telemóvel e aquele inesperado som de coisa que estala e quebra sob uma superfície dura.

Depois tudo se desenrolou fluidamente. O homem passou por mim sem deixar de falar, sem perder a tonalidade plúmbea que a hora e o estado do tempo lhe haviam conferido, a chuvinha irritante continuou a cair, eu, pasma, incrédula, continuei a segurar o guarda-chuva por cima da cabeça e o pedacinho de chão por onde José Maria se arrastara tão lesto quanto um caracol o pode ser, mudou de cor. Uma mancha castanha – pequena, quase insignificante – sobre um dos paralelepípedos, marcava então a presença daquele brevíssimo mas inesquecível caracol. José Maria, de seu nome. 

 

 

Maria João Brito de Sousa

sinto-me:
publicado por poetaporkedeusker às 12:12
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