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http://contra-sensual.blogs.sapo.pt

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14
Jun10

CRONICONTO


Maria João Brito de Sousa

 

Foi ao anoitecer de um qualquer sábado por inventar. Era um caracol. Um belíssimo e bem desenvolvido molusco gastrópode do género Hélice.

Chamava-se José Maria. Não porque isso lhe fosse útil para se distinguir entre os seus ou porque, sequer, tivesse um aparelho fonador que lhe permitisse pronunciar uma aproximação de nome. Nada disso. Aquele caracol chamava-se José Maria porque eu, naquele final de tarde assim decidi o baptizar. E isso me bastou a mim e a ele lhe foi absolutamente indiferente.

José Maria teve um curto percurso nesta crónica de um dos meus momentos de rua… descobri-o enquanto se salvava de um canteiro ensopado pela chuva que, naquele dia, parecia eternizar-se. Escapou por um triz à sola do meu sapato e continuou, viscoso e decidido, o seu caminho pelas pedras da calçada em direcção a “sabe Deus o quê”… e Deus, naquele cair de noite, não se dignou proteger o rasto viscoso mas impoluto do desafortunado José Maria.

 

Um homem de fato cinzento, alto, entroncado, caminhava em direcção a nós falando ao telemóvel. A princípio era apenas um vulto semidiluído no crepúsculo de fundo. Apenas o vislumbrei, distraída que estava, os olhos postos na caminhada lenta e ondulante do meu novo e pequeno amigo.

Ele, caracol, avançando decidido, decerto incomodado pelo excesso de humidade; eu ali, embevecida, segurando o chapéu-de-chuva e tentando entender razões e filosofias de vida dos moluscos com exosqueleto…

Pareceu-me ter decorrido uma eternidade entre o momento em que vislumbrei o homem cinzento que falava para o telemóvel e aquele inesperado som de coisa que estala e quebra sob uma superfície dura.

Depois tudo se desenrolou fluidamente. O homem passou por mim sem deixar de falar, sem perder a tonalidade plúmbea que a hora e o estado do tempo lhe haviam conferido, a chuvinha irritante continuou a cair, eu, pasma, incrédula, continuei a segurar o guarda-chuva por cima da cabeça e o pedacinho de chão por onde José Maria se arrastara tão lesto quanto um caracol o pode ser, mudou de cor. Uma mancha castanha – pequena, quase insignificante – sobre um dos paralelepípedos, marcava então a presença daquele brevíssimo mas inesquecível caracol. José Maria, de seu nome. 

 

 

Maria João Brito de Sousa

08
Jun10

DA GÉNESE DA COR


Maria João Brito de Sousa

 

A mulher recostou-se no banco de jardim, afastou com um brusco abanão de cabeça as madeixas grisalhas que lhe cobriam o rosto, respirou fundo e retomou a escrita que deixara de lado para uma última fumaça do Português Suave.

Ao longe, o mar endiabrado fazia soar o ribombar das ondas. Ela não ouvia… ou ouvia, mas interiorizava o som como se de coisa sua se tratasse. Recebera, ao nascer, esse estranho dom de se identificar com os eventos naturais. Alguns chamar-lhe-iam subjectividade. E assim era.

Passavam mulheres e carros incolores, homens mais ou menos monocrómicos, folhas indefinidas e baças levadas pelo vento. Passavam os minutos no harmonioso encadeamento de todas as inevitabilidades.

Só a mulher mantinha um estatismo apenas quebrado pelo ziguezaguear da caneta. Era nela e dela que as palavras jorravam em imparável torrente. Começavam num ponto bem definido do canto superior esquerdo da página e corriam, depois, em riachos que aumentavam, segundo a segundo, o seu caudal e acabavam por se infiltrar nos mais improváveis recantos da paisagem circundante.

Insinuavam-se, por vezes, sob os frondosos vestidos, adentravam as

mais pequenas concavidades dos corpos anónimos, subiam aos mais altos ramos dos choupos e abrunheiros nas asas dos pássaros que por ali voavam. De quando em vez, abrandava-as um pouco ou fazia-as parar nas negras penas dos melros que debicavam no passeio. A seguir deixava-as rodopiar sobre uma folha que o vento arrancava aqui e ali ou fundia-as nos multiplicados sons de fundo daquele jardim à beira estrada onde ressoavam, ainda, as ondas do mar.

O homem aproximou-se com uma postura humilde, educada. Olhou-a com olhos de nenhuma cor e sentou-se a razoável distância.

Ela continuava a deixar fluir os ribeiros de palavras sem aparentemente notar o recém-chegado.

Ele apercebeu-se deles. Não os via, não os podia entender ainda, mas sentia-os por ali, ausentes de forma e cor.

Eram canais de comunicação, caudais de pura energia que desconhecia mas que o rodeavam e sobrevoavam de forma inequívoca. Esperou que alguns deles viessem a pousar sobre ele.

Os minutos passavam e ele continuava a pressenti-los, a subentendê-los nas suas volteias improváveis, eventualmente absurdas. Mais minutos passaram. Vislumbrava-os agora, ainda informes mas começando a tingir-se das tonalidades mais imprevisíveis. Acendeu calmamente um cigarro e manteve o olhar fixo nas volutas de fumo que subiam.

As primeiras a deixar-se ver foram as letras vermelhas. Faziam um harmonioso contraste com o cinzento incerto que se evolava do rolinho branco que deixara entre o médio e o indicador. A seguir vieram as negras, as rosadas, as azuis e as amarelas nas suas mais variadas tonalidades. As mais tímidas foram as verdes. Primeiro as escuras e depois umas atrás das outras em ondas de diferentes cambiantes. Conseguia já formar palavras, frases. Enxergava os ribeiros, avaliava-lhes o caudal, descortinava-lhes os movimentos mais ou menos ondulantes.

O cigarro morrera há muito quando, ao por do sol, se levantaram em simultâneo e, de mãos dadas, se dirigiram ao mar que se tornara manso como um espelho e branco como uma folha de papel de arroz. Suavemente entraram nele até perfeitamente se fundirem e confundirem com a superfície que os recebia alegremente, numa súbita explosão de todas as cores do arco-íris.

 

 

 

Maria João Brito de Sousa

 

IMAGEM RETIRADA DA INTERNET

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