HOJE FALO-TE DE AMOR ou UMA MULHER NÃO É DE FERRO!
Maria João Brito de Sousa
Tem calma! Não desesperes que eu, hoje, falo-te de amor!
“Já não era sem tempo!”, pensarás. Mas foi assim mesmo que as coisas se passaram e se me foram desdobrando, como se o Tempo usasse, para mim, ponteiros de uma dimensão que te não diz respeito.
Que fazer? Erguia-me, no despontar dos dias, disposta a vergar os ramos desta minha segurança emocional na direcção daquilo que esperavas e logo se me enchia o coração de alegrias e tristezas e as mãos de milho, areias e rações que me ocupavam corpo e alma numa distribuição vertical, absorvente e estranhamente gratificante… esforçava-me por ter saudades – pelo menos por conseguir evocá-las… - de um beijo daqueles que aparecem descritos, às centenas, cheios de suspiros, gemidos e anseios rebuscadamente incontíveis, e logo as mãos e os olhos se me apaziguavam na maciez do pêlo de cores simples e cativantes dos meus animais, nos seus quatro focinhos expressivos e expectantes. Uma mulher não é de ferro! Tanta paz, tanto carinho, tanta dedicação partilhada, tanto bom poema para escrever e logo tu me vinhas com essas imposições da explanação gongórica dos desejos e das rebuscadíssimas metáforas ensalivadas, paroxísticas, desgastadas… uma mulher não é de ferro, repito, e eu já passei por aquilo que tu não podes nem sonhar na indigestão de ser exactamente igual ao que esperavam de mim. Mas hoje, está prometido!
Dá-me só mais uma hora… ou duas. O Beethoven olha-me com olhos de mel e eu sei que é um olhar de despedida. Oiço os primeiros acordes da sinfonia do nono miado e terei de largar estas teclas mudas. Por uma hora… duas… três… eu sei lá por quanto tempo poderei ainda ouvi-lo!
Calma! Eu sei que as duas ou três horas já passaram, no mostrador ansioso por que te deixas guiar, mas… que queres? Esta harmonia tem o seu contraponto e o Kico, tal como o Beethoven, já ultrapassou o seu tempo de vida biológica. Os órgãos disfuncionam-se-lhe e eu tenho de limpar o produto dos seus períodos de incontinência… que pena não serem momentos daqueles que se transcrevem num cio ensalivado e gemente, não é? Não são nada sensuais estes gestos da recolha dos dejectos e o vaivém da esfregona no chão não deve fazer evocar nenhum dos desgastadíssimos coitos que por aí andam descritos, mais ou menos metaforicamente… estou cansada destes contrapontos mas em verdade te digo que muito mais me cansa a banalidade levada à exaustão. Uma mulher não é de ferro!
E agora que o Sigmund me chama no seu miado rouco para uma sessão de brincadeiras e ferozes lutas fingidas… não resisto mesmo! Peço desculpa por voltar com a palavra atrás. Afinal ainda não é hoje que te falo de amor…
Maria João Brito de Sousa – 24.08.2011 – 13.40h