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05
Jul10

O CORPO ESTRANHO


Maria João Brito de Sousa

 

Ela não encontrava a chave. Procurou-a, em vão, nos bolsos do blazer e das calças. Procurou, desesperadamente, em todos os compartimentos da mala. Nada. No entanto recordava-se perfeitamente de a ter guardado algures, antes de sair a porta. Aquela mesma porta que ela costumava amar sempre que abria para sair e odiar, sempre que abria para entrar. Desta vez, nem ódio, nem amor. Nenhuma porta podia ser aberta sem chave… a não ser no conto de Aladino. Não havia chave… não entraria!

Acalmou, por fim, e tentou raciocinar. – Não há acasos!, pensou. Se a chave não aparece e a porta se não abre, é porque eu não devo entrar!

Cerrou decididamente os olhos e tentou entender o porquê. A mesma ausência de resposta. Mais ainda… não havia sinal de vida.  Não havia rigorosamente nada passível de ser entendido. Àquela hora da madrugada seria suposto os edifícios estarem a abarrotar de gente. Alguns ainda a dormir e outros alguns correndo para os chuveiros, para as portas, movendo-se apressadamente, tentando não se desencontrar, no tempo, dos transportes que os levariam aos locais de trabalho. Mas a verdade é que o prédio estava – ou aparentava estar – morto, vazio como um gigantesco túmulo à espera do seu primeiro corpo. Até os pardais, que invariavelmente vinham saudar cada alvorecer, tinham desaparecido por obra e graça.

Sacudiu a cabeça decididamente, tentando afastar os últimos acordes de Bob Marley que haviam marcado o compasso final de uma noite de boémia. Tudo lhe parecia desconexo. Talvez não, exactamente, desconexo… talvez, apenas, diferente, alheio, ausente.

Voltou as costas ao edifício e refez, em sentido contrário, os passos da caminhada que a trouxera até àquela porta. Hesitou por segundos.

Não fazia sentido…, pensou. Àquela hora o local estaria deserto… outra porta fechada! Caminhou, ainda assim. A lua sorria-lhe lá de cima, prenha e amável.

Quando, por fim, chegou à discoteca, parou ligeiramente perturbada. A música já não se fazia ouvir, o que era perfeitamente normal devido ao adiantado da hora, mas alguém, lá de dentro, parecia chamar o seu nome. Não. Não o nome. Era a ela mesma, mulher ou coisa nenhuma, transcendendo a necessidade do substantivo próprio, que alguém chamava suave mas imperiosamente. Felizmente ali não seria necessário usar chave. Bastaria empurrar a porta. Mas nem isso foi preciso. Flutuou graciosamente através dela, pasma, confundida.

Um rapaz de t-shirt negra despejava os últimos cinzeiros e arrumava os últimos copos e, sobre uma das mesas, um corpo repousava como se dormisse, os cabelos negros espalhados em leque na superfície metálica. Um braço levemente apoiado no assento da cadeira fê-la alongar o olhar até à sua extremidade. A mão, cerrada, segurava ainda uma chave. Entendeu no preciso instante em que os olhos alcançaram o pedacinho de metal prateado, trabalhado, recortado. Aproximou-se do corpo e reparou que os lábios sorriam e os olhos, mesmo fechados, eram eloquentes… e chamavam-na. Chamavam-na porque aquele era o seu corpo e teria de permanecer nele por mais algum tempo. O tempo suficiente para o rapaz da t-shirt preta descobrir que estava morta, chamar os bombeiros ou o que quer que fosse necessário chamar numa situação daquelas, avisar os donos do estabelecimento, assustar-se talvez… o que importava agora?

Entrou no corpo imóvel e ali ficou, obedientemente, a sorrir, à espera de que, pelo menos naquelas circunstâncias, alguém fizesse alguma coisa por ela.

 

 

 

Maria João Brito de Sousa - 1993

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