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04
Jan11

PARA AS CRIANÇAS DA MINHA VIDA... E NÃO SÓ...


Maria João Brito de Sousa

 

Encontrei, por acaso, esta crónica – ou o que resta dela – de Maria Rosa Colaço, publicada no jornal “A Capital” em 1994.

Gosto muito deste tempero tão especial com que os acasos me têm brindado quando quero MESMO escrever sobre qualquer coisa em que acredito muito e, portanto, defendo e defenderei incondicionalmente. Sabia que teria o artigo algures, no meio de toneladas – ou resmas – de artigos, fotografias, desenhos e originais de poemas manuscritos… o que eu nunca pensei foi conseguir dar com ele, assim, numa primeira tentativa, como se a divina providência tivesse feito questão de me emprestar uma mãozinha, já que as minhas estão demasiado lentas e indecisas.

Fui ao circo uma única vez em toda a minha infância e doí-me. Doí-me o suficiente para começar a pensar, por essa altura, exactamente da mesma forma que penso e sinto agora, aos cinquenta e oito anos, em relação aos animais selvagens que são forçados, pela mão do animal humano, a viver e a agir contra a sua natureza.


“Que superioridade haverá num homem que, à força de chicote, consegue que um elefante se ponha de pé, se sente num tambor, ou que um tigre atravesse um arco em chamas?

Esta vocação de imperadores romanos que todos, ou quase, alimentam nas profundezas das suas fantasias, preocupa-me bastante. Sobretudo pela forma como se generalizou chamar-se de divertimento levar os filhos ao circo. As crianças habituaram-se, assim, à festa da carnificina disfarçada de lantejoulas, à violência disfarçada de prazer e maravilha. Seres que são o que resta de uma liberdade inicial e pura, quando a Terra havia lugar para a ordem natural das coisas e a harmonia era por isso possível, são ofendidos de toda a maneira: ou mortos, ou violentados para alimentar a ganância do homem, sempre o homem nas suas perversões várias e mal resolvidas; ou metidos em jaulas com redes, morrendo lentamente de solidão, de tristeza.”… … …”A morte deste animal, a dignidade, foi uma coisa que não esquecerei tão cedo. Morreu livre! Longe dos néones, dos chicotes, das jaulas, da comida a conta-gotas. A esta hora está no fundo mais fundo de uma selva verde, rodeado dos pais e irmãos que outros caçadores, loucos também, assassinaram para lhes roubar as presas e fazer ridículas pulseiras de marfim, colares primitivos ou exibir nas salas coloniais entre peles de tigres embalsamados, cabeças de javali e gazelas de olhos húmidos.

A esta hora, o meu elefante cujo nome não cheguei a ouvir mas que poderá chamar-se “Liberdade”, é um animal livre. E intocável.

Deixou-nos um  grande aviso: nunca nos fiemos na passividade dos oprimidos, na obediência dos que, pensam, se podem domesticar, porque há sempre o dia da consciência colectiva, das decisões, das memórias acumuladas. E, como também diz o poeta:

Não há machado que corte a raiz ao pensamento.

Mataram um elefante que se cansou de ser domesticado.

Desfolho, na tarde, uma flor de ibisco sobre esta história de Agosto. 1994.


Maria Rosa Colaço"

 


Quando iniciei este post, propunha-me escrever mais, muito mais do que os três primeiros parágrafos que são, efectivamente de minha autoria…propunha-me, mas não tinha ainda relido esta crónica. Agora reli-a, transcrevi alguns parágrafos e só posso dizer que se de alguma coisa me podem acusar as crianças que foram minhas e as que comigo lidaram, não será, decerto, de estimular o desenvolvimento da tal costelazinha de imperador romano de polegar indeciso, oscilando entre dar ou tirar a liberdade de uma vida, que, sem dúvida, continua a fazer-se sentir na maioria dos seres humanos. Ah, não! De especista e manipuladora  ninguém me poderá acusar! É ou não é verdade, crianças da minha vida?

 

 


Maria João Brito de Sousa

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