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http://contra-sensual.blogs.sapo.pt

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29
Mai15

OBRA - Dissecação de um conceito de...


Maria João Brito de Sousa

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(Proseando...)

 

A criatividade – aquela que nos nasce das constantes colisões com as imprevisibilidades do espaço e do tempo, não a que nos surge mercantilisticamente formatada pelas chamadas “necessidades de mercado” - nunca foi muito amiga das burocracias, nem dos caminhos traçados por outrém... esmagam-na as imposições, viola-no-la e inutiliza-no-la a rigidez dos protocolos. Mas engendra(se). Sempre.

 

Venho de uma geração que sempre privilegiou o utilitário, sem nunca ter deixado que lhe fossem arrancadas as raízes primordiais do sonho e do espanto. A “fornada” exactamente necessária àquele tempo, neste espaço. Sou, portanto, dessa “fornada”, uma peçazinha claramente nascida para a produção ao nível das artes e das ciências a quem, porém, uma vez enredada na teia social, acabaram por ficar vedadas todas as formas de se tornar verdadeiramente útil e de preencher com o seu específico desempenho, alguns dos muitos, dos infindáveis – e muito desejáveis... - espaços vazios do sempre crescente e ondulante tecido criativo.

 

Nunca me queixo. Constato. E aproveito para, agora que em verdade posso dizer que me é muito difícil ter força para agir e espantosamente fácil encontrar um sentido para a acção, tentar cumprir, no pouco tempo que me resta, o que poderia ter vindo a ser cumprido ao longo do tempo útil de uma vida.

 

Obra? É isto. Este espaço chamado erro que medeia
entre o que já fizémos e aquilo que poderíamos ter feito.

 

 

Maria João Brito de Sousa -29.05.2015

14
Set10

ENREDOS


Maria João Brito de Sousa

 

 

 

Reparei nela assim que entrou na sala de espera. Foi o som que primeiro me chamou a atenção, o estalar ritmado e seguro de saltos altos na cerâmica que cobria o chão. Ainda hoje, quando penso nisso, não consigo perceber como a ouvi chegar. O meu olhar colado à porta do consultório parecia ter monopolizado os outros sentidos e ouvir fosse o que fosse que viesse de outro ponto da sala, seria muito improvável. No entanto ouvi-a e o som tornou-se suficientemente intrigante para me fazer desviar olhos e atenção, rodar o tronco no sentido oposto e deixar-me afundar num arrepio de pânico quando confirmei a suspeita levantada, algures no meu cérebro, pelo familiar tic-toc dos passos da minha mãe. Estava ali, a alguns metros de mim, debruçada sobre o balcão de atendimento, interrogando com a sua proverbial segurança a empregada de serviço. Como me irritava e simultaneamente assustava aquela inabalável segurança de quem sabe exactamente o que faz e porque o faz!

Um suor frio cobriu-me o rosto e, por instantes, senti uma imensa urgência de fuga. Talvez conseguisse passar sem que ela me visse, chegar ao patamar, entrar no elevador e desaparecer de uma  vez por todas… mas não. Os olhos dela, serenos, severos, estavam já pousados sobre mim e ela percorria – tic-toc – os poucos passos que ainda nos separavam.

Parou exactamente à minha frente antes de me dar tempo de esboçar um gesto de fuga.

- Vem comigo até à varanda, Marta., solicitou ignorando a minha lividez e o tremor das minhas mãos que uma providencial revista anónima não conseguia disfarçar. De novo me assaltou a ideia de fuga, mas já a mão dela segurava a minha e o meu corpo obedecia automaticamente à sua esmagadora determinação.

Lá fora, a tarde arrefecia como se quisesse justificar o gelo que parecia ter tomado conta de mim e o trânsito, na rua, parecia tão caótico quanto as batidas do meu coração. Ela, severa, serena, segura – tão absurdamente segura! - acendia um cigarro sem esboçar um sorriso.

- E agora, Marta, vais dizer-me o que estás a fazer num consultório de ginecologia e obstetrícia, ou vais deixar que eu adivinhe?, atirou depois de soprar a primeira espiral de fumo branco.

- Como soubeste que eu estava aqui?

- Puro acaso, Marta… e não me agrada que tenha sido assim. Ia a sair da pastelaria quando te vi deste lado da rua. Chamei-te e não me ouviste. Pensei chamar-te de novo, mas tu já lias a placa junto à porta do consultório e resolvi não te dar a hipótese de mentires… mais uma vez.

 


Maria João Brito de Sousa

 


“Enredado”para http://fabricadehistorias.blogs.sapo.pt/


 

NOTA - A peça inicial, sublinhada, é da inteira responsabilidade e autoria da Fábrica. O meu trabalho só se inicia a partir da última palavra em destaque.

08
Jun10

DA GÉNESE DA COR


Maria João Brito de Sousa

 

A mulher recostou-se no banco de jardim, afastou com um brusco abanão de cabeça as madeixas grisalhas que lhe cobriam o rosto, respirou fundo e retomou a escrita que deixara de lado para uma última fumaça do Português Suave.

Ao longe, o mar endiabrado fazia soar o ribombar das ondas. Ela não ouvia… ou ouvia, mas interiorizava o som como se de coisa sua se tratasse. Recebera, ao nascer, esse estranho dom de se identificar com os eventos naturais. Alguns chamar-lhe-iam subjectividade. E assim era.

Passavam mulheres e carros incolores, homens mais ou menos monocrómicos, folhas indefinidas e baças levadas pelo vento. Passavam os minutos no harmonioso encadeamento de todas as inevitabilidades.

Só a mulher mantinha um estatismo apenas quebrado pelo ziguezaguear da caneta. Era nela e dela que as palavras jorravam em imparável torrente. Começavam num ponto bem definido do canto superior esquerdo da página e corriam, depois, em riachos que aumentavam, segundo a segundo, o seu caudal e acabavam por se infiltrar nos mais improváveis recantos da paisagem circundante.

Insinuavam-se, por vezes, sob os frondosos vestidos, adentravam as

mais pequenas concavidades dos corpos anónimos, subiam aos mais altos ramos dos choupos e abrunheiros nas asas dos pássaros que por ali voavam. De quando em vez, abrandava-as um pouco ou fazia-as parar nas negras penas dos melros que debicavam no passeio. A seguir deixava-as rodopiar sobre uma folha que o vento arrancava aqui e ali ou fundia-as nos multiplicados sons de fundo daquele jardim à beira estrada onde ressoavam, ainda, as ondas do mar.

O homem aproximou-se com uma postura humilde, educada. Olhou-a com olhos de nenhuma cor e sentou-se a razoável distância.

Ela continuava a deixar fluir os ribeiros de palavras sem aparentemente notar o recém-chegado.

Ele apercebeu-se deles. Não os via, não os podia entender ainda, mas sentia-os por ali, ausentes de forma e cor.

Eram canais de comunicação, caudais de pura energia que desconhecia mas que o rodeavam e sobrevoavam de forma inequívoca. Esperou que alguns deles viessem a pousar sobre ele.

Os minutos passavam e ele continuava a pressenti-los, a subentendê-los nas suas volteias improváveis, eventualmente absurdas. Mais minutos passaram. Vislumbrava-os agora, ainda informes mas começando a tingir-se das tonalidades mais imprevisíveis. Acendeu calmamente um cigarro e manteve o olhar fixo nas volutas de fumo que subiam.

As primeiras a deixar-se ver foram as letras vermelhas. Faziam um harmonioso contraste com o cinzento incerto que se evolava do rolinho branco que deixara entre o médio e o indicador. A seguir vieram as negras, as rosadas, as azuis e as amarelas nas suas mais variadas tonalidades. As mais tímidas foram as verdes. Primeiro as escuras e depois umas atrás das outras em ondas de diferentes cambiantes. Conseguia já formar palavras, frases. Enxergava os ribeiros, avaliava-lhes o caudal, descortinava-lhes os movimentos mais ou menos ondulantes.

O cigarro morrera há muito quando, ao por do sol, se levantaram em simultâneo e, de mãos dadas, se dirigiram ao mar que se tornara manso como um espelho e branco como uma folha de papel de arroz. Suavemente entraram nele até perfeitamente se fundirem e confundirem com a superfície que os recebia alegremente, numa súbita explosão de todas as cores do arco-íris.

 

 

 

Maria João Brito de Sousa

 

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