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02
Mai16

ELA(S)


Maria João Brito de Sousa

oculos cor de rosa.jpg

 

ELA(S)

 

 

Elas escolheram lá ter de semi-viver, ter de lutar a cada segundo pelo direito à próxima inspiração - arquejante(s) -, ter de sentir que a febre as aliena como se de excesso de vinho se tratasse... elas previram lá precisarem de estrebuchar, por dentro, à procura da palavra correcta, quando a sua existência se esculpe e acrescenta nas e pelas palavras e foi exactamente assim, sobre os alicerces da palavra escrita, que sobreviveram durante os últimos anos do seu percurso... porém, verdade seja dita, ela(s) jamais teria(m) querido vidas de algodão-doce, ou estradas de rebuçados, bombons e príncipes encantados. Elas protestam, mas estão em paz com as suas consciências e rejeitam os silicones exteriores... ou interiores.



Se, efectivamente, houvesse que escolher entre uma outra, ela(s) teria(m) escolhido a primeira, sem hesitar...



Quem pode escrever poesia decente cavalgando um unicórnio e envergando uns óculos côr-de-rosa?



Maria João Brito de Sousa - 02.05.2016

 

 

10
Out15

A PENÚLTIMA DIMENSÃO


Maria João Brito de Sousa

PESSOAL - WIN_20140727_013530.JPG

 

Procurou, com a lentidão que o corpo permitia, a caixinha preta e oval onde guardara o absolutamente necessário a meia dúzia de pontinhos numa situação de emergência. Duas ou três agulhas e quatro carrinhos de linhas com as cores básicas. Onde seria que a guardara? A casa, se bem que a sua inseparável companheira e, sempre, o seu mais apetecido refúgio, tornara-se-lhe um mundo algo hostil, cheia de espaços longínquos, perigosas arribas e penhascos que lhe potenciavam as fraquezas do corpo, para não falar das profundas cavernas de muito difícil acesso em que todas as gavetas, por obra e graça de uma velhice precoce, se haviam transformado. Encontrou-a, por fim, no fundo de uma delas, abriu com dificuldade a tampa e levou o seu tempo a avaliar os pequenos e finíssimos bastões prateados. Um deles, bastante mais palpável do que os outros, acabou por parecer satisfazê-la. Mediu-o de ponta a ponta, tentou destrinçar-lhe o circúlo imperfeito e ôco onde seria suposto a linha atravessá-lo e descansou alguns minutos. A tarefa revelava-se-lhe, conforme previra, árdua. O esforço da busca fazia-se-lhe sentir por todo o corpo, a vista mal recuperara da sondagem necessária à destrinça, dentre as poucas que a caixa continha, da que ainda pudesse revelar-se-lhe útil, e a mão, cansada de explorar labirínticas e profundíssimas gavetas, não readquirira, ainda, a firmeza absolutamente indispensável ao que, de momento, se lhe impunha.

 

Depois... depois veio a prova de fogo em que se tornara reparar uma malha caída numa velha camisola . Viu-se forçada a usar uma lupa. Incómoda ferramenta que, de alguma estranha forma, alterava as distâncias e distorcia os espaços que automaticamente fora incorporando ao longo dos anos e que, agora, se lhe revelavam cada vez mais impossíveis de gerir. Também o tempo se lhe distorcera e cada vez mais parecia esfumar-se, voando velozmente na proporção directa da imprecisa lentidão de cada um dos seus gestos. Quantas horas caberiam, agora, entre o início de uma tarefa básica e a sua hipotética concretização, era algo que mudara completa e paulatinamente a sua visão da vida, os seus objectivos e até os seus sonhos. Os seus sonhos pessoais, claro está.

 

 

Afinal, vista à lupa, a vida humana ganha uma novíssima dimensão.



(Continua, ou talvez não...)



Maria João Brito de Sousa - 10.10. 2015 - 17.54h

 

 

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